31.3.11

meaningful

'Nós e as palavras... E saber que tudo começou também com palavras
“Faz-te sentido este curso, estas aulas?”, “Faz-te sentido o mundo, a bossa nova, os versos a Sophia, a simplicidade?” , “O Nelson Mandela é uma pessoa que o meu pai admira”, “Não gosto de ser o centro das atenções”.
E por aí fomos prosseguindo, sempre com inquietude, incertezas, lembrando que “para a frente é que é o caminho”, “quando não há solução, o que fazemos? Fugimos para a frente, porque para a frente há sempre estrada”, pela estrada fora, raparigas, varandas, grupo, diversidade, respeito.

O que é preciso para haver ternura? Dois. A mãe panda e o porco que se tornaria uma bola de pêlo como o baptizaste quando começou a ser urso. Mama Panda, Ma petit, Marigold, Mary ann, já viste a quantidade de “M”, M de mundo “queres aprender o mundo?”(tantas escolhas, tanta maravilha por aí solta e nós fechados em metros quadrados), do Mar de Sophia, dos Montes ,das Montanhas, dos Himalaias aos EUA, M de Melancolia, M de melodia (música, meu bem... a música!), M de místico (significados sempre partilhados), M de melancia (adoramos, vero? Mas não o filme, ninguém que nos lembre o filme), M de Mota (como a do Che ou a do teu pai a viajar na América Latina no tempo em que viajar não era nada disto), M de mel (a voz do lenny, tu em Lisboa, eu no meio dos apontamentos de psicofisiologia), M de mil (tudo o que houve antes de nós – 1999 e todos os anteriores miles), M de método (os caminhos dolorosos da investigação que muitas vezes pareceram um castinho), M de mala (viagem!!!!!!Aqui vamos nós!)
Viajar cura a melancolia, viaja cura qualquer coisa, as viagens e as palavras transportam-nos. Onde? Ao fundo da garrafa, ao que está depois do líquido, depois da ilusão do fundo do ralo, o que está para além do mundo depois do fim do mundo?
Não esqueças de:

1. Esvaziar para o sono entrar,

2. Abraçar a maior quantidade de árvores possível,

3. Sorrir,

4. Dar muitos mergulhos (sempre que mergulho penso em ti J),

5. Apreciar o ar que se respira, os sons, os sabores (tu és pro),

6. Deixar o ar entrar, abrir as mãos ao infinito,

7. Gravar os momentos na memória que é o melhor lugar onde podem ficar,

8. Dizer mais “Sim” do que “Não”,

9. Ter sempre sete (o teu número) de um a dez,

10. Amar (como se não houvesse nem passado nem futuro, apenas presente)

Agradeço todos os dias o facto de ter a lucidez de ver o quanto precioso é fazer com alguém uma estrada paralela, partilhar silêncios e significados, abrir baús em conjunto, falar de filosofia (Deleuze aí vou eu), de cinema (A Bela Impertinente já a seguir), de música (leva o baden powell sim?), da vida (regressaremos a casa um dia?), de poemas (“para atravessar contigo a solidão do mundo”) de partilhar momentos, de nos partilharmos, de nos darmos, de abrirmos o coração como se fossem janelas, de nos rirmos em conjunto (o melhor antídoto contra a tristeza), de superar angústias, de ainda acreditarmos numa amizade assim.


Dir-te-ia como escreveu o Lobo Antunes (que eu adoro, tu sabes) porque não consigo descrever melhor esta ideia que me emociona “existes tão fundo em mim como uma árvore com as suas raízes mais profundas, que nenhum tempo, nem nada, nem mesmo eu mesma, as poderá arrancar”. O que posso mais dizer? Quando o meu mundo ameaça ruir nunca me sinto só. Sei sempre que por mais que as portas estejam brutalmente fechadas, que as lágrimas fechem, que existam momentos muito difíceis, tu és o meu sol e nunca perco a esperança em ti, e sei como se a certeza fosse cimento, que estaremos aqui uma para a outra, de sempre, para sempre.
Prometo que um dia voltaremos a casa finalmente (volver), amaremos o próximo e as portas irão-se abrir de par a par.
Gosto de ti sem mais nada*'

20.2.11

=)

período de 'amusement' em que tudo é novo e diferente.

é uma coisa fantástica experimentar esse estranhamento do que não é familiar, faz-nos mais plurais e relativiza a nossa visão de mundo.

books

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

15.2.11

delicious addiction

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

super publicitados pelo tit'o, que os trouxe de são tomé e príncipe, como uma verdadeira relíquia.
uma verdadeira iguaria, saboreada em pequenas doses diárias.

14.2.11

singing and dancing



24.12.10

xmas

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

27.8.10

moledo recebeu-me com dias quentes e mergulhos salgados


Photobucket

25.8.10

back

tenho tanta coisa para contar. tanto chão, tantos trilhos, tantas estradas, tantas ruas, tantos cheiros, tantos sabores, tantas vivências, tantas emoções, tantos abraços, tantos sorrisos, tantas lágrimas, tantos sonhos, tantos projectos, tantos planos. por agora ainda tento arrumar as memórias. rever as imagens mentalmente.

11.8.10

cai a tarde, a tarde toda, na velocidade da luz

3.8.10

'tento imaginar por onde andas, onde dormes, que iguarias comes, quem conheces, de que são feitos os teus dias'

22.7.10

'adoro imaginar-te assim linda e livre, solta ao mundo'

13.7.10

quoting (29)

viajar! perder países!
ser outro constantemente,
por a alma não ter raízes
se viver de ver somente!

não pertencer nem a mim!
ir em frente, ir a seguir
a ausência de ter um fim,
e a ânsia de o conseguir!

viajar assim é viagem.
mas faço-o sem ter de meu
mais que o sonho da passagem.
o resto é só terra e céu.


[fernando pessoa]

9.7.10

summer mantra

a última pessoa de quem me despeço o meu pai, sorri enquanto diz:
se correr alguma coisa mal pego no meu brevet e vou-te buscar.

'eu também iria no avião do titó. com capacete e óculos =) mas como tu vais a caminho do coração sorridente, o avião do titó fica aqui descansado no hangar'

'admiro-te, vais ser feliz em lugares novos e esta viagem vai ficar sempre guardada na tua memória'

'é maravilhoso imaginar o titó piloto! mas não vai correr nada mal! por muito amor que haja envolvido esta aventura é tua! de descoberta, coragem, perceber os limites, o que queres, o que és capaz. descobrir sítios do mundo que talvez nunca visses noutro tipo de viagem. estou muito orgulhosa'

Photobucket

8.7.10

Photobucket

7.7.10

baby

andava há 1mês a tentar fotografar os melros bebés, hoje finalmente consegui =)
tivemos dois ninhos este ano no jardim


Photobucket

6.7.10

"eu acredito - mesmo - que a atençao é a forma mais genuína de gostar"
o meu pai é assim, ensina-me a cada gesto o que é cuidar de alguém, estar atenta.
os pormenores.
partilhar irmamente.
é o quanto mais te dava, mais tinha para te dar.
seja o melro a cantar ou as cerejas que lhe deram e dividiu pelas aldeias no hospital.
e acho que assim escrito nem se percebe.


Photobucket

já falei do sr. josé aqui, ali e também aqui.
é uma presença constante dos meus dias, faz parte dos rituais.
o primeiro post falava de problemas de saúde já lá vão 3 anos.
nunca mais houve nenhuma complicação e todos os dias vai fazendo jus aos seus 82 anos invejáveis.
contudo, a mulher do sr josé, que também já tem 80 anos, tem tido alguns esquecimentos e períodos de confusão, chegando a perder-se. o sr josé está com medo de a deixar sozinha, vai dai que a trouxe consigo e agora é vê-los chegar os dois às 8 da matina.
no outro dia diz-me "menina, é o serviço que faço, que é coisa que mais adoro, que me dá força". pois não tenho a mínima dúvida.


Photobucket




Photobucket




Photobucket




Photobucket




Photobucket




Photobucket




Photobucket

5.7.10

lua de menilis,
vôo confirmado



Photobucket

28.6.10

colourful jump

ali tinhamos saltado muito, hoje voltamos aos saltos bem altos =) que bom que bom
berlindes e sorrisos, acreditar



Photobucket




Photobucket




Photobucket




Photobucket



banho demorado
bolachas de chocolate
os mimos da miss m
sol
calor
uma andorinha no terraço
o terraço
o mar
vento bom
o meu perfume
ir almoçar ao ar livre
o colo do passeio alegre
o cheiro a rio
ópera na antena 2
a ponte de arrábida
ter fome e querer uma pizza
jantar no cometa
água fresca
a foz de carro
o meu carro
uma borboleta só para mim
sol
calor
esta música
conduzir
sandálias
o carro estacionado debaixo de uma árvore bonita
cabelo sem secador
ir agora ao outlet de mindelo
mimar-me
uma carteira com um cão de tiara e xadrez
depilação
quadradinhos de chocolate
o livro do proust
pulseiras vermelhas
anjo do passeio alegre
barcos no rio
mar
ir ao cabeleireiro e ter uma massagem na cabeça
pontas acertadas
óculos de sol
sumo de espirulina
palavras da miss m
massagem relaxante
jazz na antena 2
o anjo do passeio alegre
o por-do-sol
o baptizado
o sorriso do G
brincar com a Carolina
a labrador da Carolina
almoçar no terraço
jacuzzi na banheira
A ENTREVISTA :)
o cheiro da roupa acabada de lavar
fotografias com a miss m no terraço
jantar com a miss m que depois adormece no sofá
patins com cordões novos
puzzles da ikea
sandálias novas
microondas e aspirador
manjerico
sol

só muda o nosso mundo quem nos conduz ao mais fundo de nós


Photobucket

27.6.10

swimming pool

Photobucket



Photobucket




que bem sabe uma tarde na piscina, conversas e mais conversas, partilha, livros dos graça moura, zimler, al berto, o cemitério dos pianos, a tia júlia. a psicoterapia e as sociedades. as dicas da bimby e receitas pão com chouriço, pudim de bacalhau, gelado de chocolate. o d-e-l-i-c-i-o-s-o fondat de caramelo e as tentativas de o reproduzir. o curso de culinária. os sonhos muito sugestivos, ah pois é o inconsciente liberta. o sjoão com muitas sardinhas e com concurso de balões. o ajustamento, psicologia positiva. o mi, o karaté do mi, os desenhos do mi, as cartas do mi, a sobrinhada a marcar terreno (estou a espera das fotografias). os desejos, os medos. cumplicidade

26.6.10

quoting (28)

não sou nada

nunca serei nada

não posso querer ser nada

à parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo



Photobucket






[álvaro de campos 1928]

23.6.10

menilis

há mensagens fortes que nos deixam com um sorriso gigante a semana inteira



Photobucket

quoting (27)

recomeça...
se puderes
sem angústia
e sem pressa.
e os passos que deres,
nesse caminho duro
do futuro
dá-os em liberdade.
enquanto não alcances
não descanses.
de nenhum fruto queiras só metade.

e, nunca saciado,
vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
sempre a sonhar e vendo
o logro da aventura.
és homem, não te esqueças!
só é tua a loucura
onde, com lucidez, te reconheças…



[miguel torga]

Photobucket

22.6.10

novo ciclo, mudança.
começo aos poucos a despedir-me dos sítios q deixo, foi assim no chcf, na trofa e agora no hospital.
são pequenos rituais a que me afeiçoou-o
a melancolia pelo fim é muita, e começo já a antecipar as perdas. das pessoas que passaram por mim, daqueles que consegui ajudar e dos outros, por quem ainda gostaria de fazer muito.
instala-se a nostalgia e silenciosamente vou dizendo adeus e guardando o que de bom fica.
as boleias matinais, as brincadeiras com os profissionais, o almoço semanal invariavelmente no museu, por vezes no zé bota.
cruzar-me com o meu pai, ouvir os seus espirros inconfundíveis ao longe.
conversar com os doentes.
e saber que me vai custar.
sinto tantas saudades dos meninos da trofa, da minha inês, que tantas vezes povoa os meus sonhos.
sei que sempre que se fecha um ciclo outro se inicia, carregado de simbolismo e significado, custa-me sempre tanto o fim.
ainda falta uma semana e já sinto uma torrente cá dentro.

“tal como no amor, também esta experiência se foi construindo ao longo de fases mais ou menos apaixonadas, de momentos mais penosos, de investimentos, de alegrias e conquistas, de desilusões e frustrações, tendo todo este cortejo de emoções culminado numa experiência mais que positiva, onde o optimismo, a perseverança e a motivação conseguiram prevalecer, transformando-me e impulsionando-me para novos sonhos…"

in the summer time when the weather is high

Photobucket




Photobucket



Photobucket



Photobucket



ontem chegou o verão e eu fui comemorá-lo =)

18.6.10

comovida com estas palavras, que o meu pai me deu no dia em saíram no público e que guardo com carinho desde então:

"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

[saramago]

15.6.10

book wish

andava há meses atrás do al berto, mais uma editora falida e não havia meio de o encontrar, já tinha chegado a encomendar online, mas recebi email a dizer que estava esgotado. como diz o dito, quem procura sempre alcança e por fim consegui.

e o livro começa assim:

"um dia li num livro: viajar cura a melancolia.
creio que, na altura, acreditei no que lia. estava doente, tinha quinze anos. não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.
os anos passaram – como se apagam as estrelas cadentes – e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. no entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
a verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite… avancei sempre, sem destino certo.
tudo começou a seguir àquela doença.
era ainda noite fechada. levantei-me e parti. fui em direcção ao mar. segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude. vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.
dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo, em celeiros, garagens abandonadas, uma cama…
e quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas. aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. caminha, assim, com a leveza de quem abandonou tudo. deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
a pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
o olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro.
viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida – entre o homem e a terra. "

mermaid wishes